Saturday, March 25, 2006

Presa pela PIDE - testemunho real

Fui presa no dia 21 de Abril de 1965. A P.I.D.E. assaltou-me a casa. Eram 4.30 da madrugada. Estava sozinha.

Depois de arrombarem a porta, entraram imensos pides e depois a GNR. Vinha na frente um indivíduo com um pé de cabra, e puseram-me as pistolas à frente, mandaram-me pôr as mãos no ar, o que eu não fiz, achando ridículo tanto aparato para prender uma mulher indefesa.

Houve uma altura em que peguei numa fotografia do meu filho que me foi arrancada das mãos. Roubaram-me todas as fotografias dele, assim como todas as minhas coisas que tinha em casa. Logo ali começaram os interrogatórios. Estive ali até às 21h45, altura em que me levaram para a sede da P.I.D.E. em Lisboa. Chegada lá, aparece-me uma mulher com fala de parvinha, que começou então: «Coitadinha, onde foi presa? Como se chama? Foi presa?» nada respondi. Revistou-me e saiu.

Entra então pide Capela em altos berros: «Levante-se. Quando eu aqui entrar tem de se pôr de pé. Tem de se identificar. Preencha este papel.»

Como eu disse que ninguém me podia obrigar a dizer ou a fazer aquilo que eu não queria, ele disse: «Esta quer levar a bandeira do Partido em cima do caixão.»

De madrugada, levaram-me para o forte de Caxias, para uma sala com oito camas, mas onde estive sempre sozinha.

No dia 6 de manhã levaram-me outra vez na carrinha celular para a sede da P.I.D.E., na rua António Maria Cardoso. Apareceu-me o inspector Tinoco para dizer que já sabia tudo a meu respeito, as minhas actividades, mas que queria ouvir da minha boca; dizia que até sabia ter eu estado num sanatório. Que se eu não falasse só saía dali para a morgue ou para o manicómio. Os interrogatórios foram feitos pelo Tinoco e pelo Serra. Diziam também que tinham prendido o meu marido e que ele estava preocupado que eu não tivesse pensos higiénicos. Coisas deste género eram-me ditas a todo o instante.

Nesse mesmo dia de manhã o Tinoco deu ordens à mulher pide desse turno que me estava a guardar que não me deixasse ir à casa de banho enquanto não falasse e que as necessidades eram feitas ali na frente deles e limpas com a minha própria roupa. Que o meu marido já tinha dito tudo e que dali não saia ninguém sem falar, que o partido não merecia tanto sacrifício, etc.

Primeiro tiraram-me a camisola de malha, depois a blusa e a seguir a saia, para limparem as necessidades, pois durante os dias e as noites que estive ali não fui à casa de banho, nem sequer para lavar as mãos. O pide Serra quis então obrigar-me a levar para a casa de banho as roupas ensopadas em urina e vomitado. Recusei-me determinantemente. Antes de começar a fazer as necessidades no chão, alimentei a esperança de que mudassem de ideias. Aguentei até à última. Arranjei com isso um descontrolo que mesmo depois de ir para Caxias, urinava pelos corredores, não conseguia reter a urina.

No dia 7 já não consegui comer. Ameaçaram-me com a sonda. Tinha febre e pedi um médico. Foi-me recusado.

Comecei a ouvir gritos ao longe, depois mais perto. Veio outra vez o Serra: «é melhor dizer as suas actividades, até porque já sabemos de tudo.» Nada respondi. Devia ter os nervos bastante descontrolados, pois só ria às gargalhadas. Apareceu-me depois outro pide chamado Manuel Rodrigues, que me dizia que eu era muito gira, era mal empregada no Abrantes, o meu marido. Diziam-me também constantemente que a minha família me vinha procurar todos os dias, mas que enquanto eu não falasse não tinha visitas. Respondi-lhes que nunca as teria, pois podiam matar-me que eu não diria o que quer que fosse.

No dia seguinte comecei a ver bichos nas pernas de uma mesa, coisas monstruosas nas paredes e no chão. Já mal me aguentava de pé. Tinha dores de cabeça fortíssimas, vomitava a toda a hora. Nesse dia 8, à noite, um sábado, diz o Tinoco: « Maluca já ela está. Não se aguenta mais. Vai passar o fim de semana a Caxias e volta segunda-feira, de manhã para continuar o espetaculo; agora ainda ficou com combinação, mas segunda-feira vai ficar nua. Depois entram os cavalheiros e saem as senhoras.»

Nessa manhã tinha-me aparecido a menstruação. Foi assim, toda suja, que andei todo o dia sem me poder lavar; fui para Caxias. Fui para a mesma sala e continuei sozinha. Parecia que estava doida. Fiquei afónica; não articulava palavra.

Na segunda-feira, mandaram-me da P.I.D.E. a minha roupa, cheia de urina e vomitado, a cheirar bastante mal.

Na terça-feira levaram-me outra vez para a sede da P.I.D.E. Depois de me tirarem fotografias e impressões digitais, o pide Serra conduziu-me para a sala onde tinha estado na tortura do sono. Foi-me perguntado novamente se eu não falava. Garantiram-me que eu iria ficar toda nua. Não acreditei.
Sabia que a P.I.D.E. fazia todas as canalhices, mas desconhecia que eles utilizassem esses medos. Entraram então na sala duas pides – Madalena e uma outra – a seguir Tinoco, o Serra e muitos outros. O Tinoco disse à Madalena que podia começar.

A cada peça que ela ia tirando, ele ia perguntando se eu falava. Como nada respondesse, continuava a despir-me. Quando me senti desnudada tentei encobrir-me com uma mesa e a Madalena empurrou-me para o meio da sala. Comecei então a contá-los em altos berros. Contei dez e disse: «Bandidos, se eu pudesse!... O povo há-de vingar-se. Matem-me carrascos!»

Os agentes saíram e fiquei só com as pides. Continuaram as provocações e as palavras obscenas. A Madalena começo aos pontapés e a puxar-me o nariz, a bater-me na cara. Como eu continuasse a rir às gargalhadas, cada vez me batia mais, para que eu chorasse em vez de rir.

Surge então um pide a dizer que me vinha ver nua e ela respondeu que não valia a pena ver uma «merda» destas, mas para os comunistas qualquer coisa serve; basta ter um buraco e fazer movimentos. Disse ainda: «Vamos embora, que esta puta, esta merda, não diz nada, não fala, e se eu fico aqui mais tempo espatifo-a toda».


Veio um pide com uma máquina fotográfica. O Serra dava-me murros no queixo para eu levantar a cabeça e nessa altura o «flash» batia-me nos olhos. Tiraram-me imensas fotografias (ou fingiram que tiraram), sempre o Serra a empurrar-me, a pegar-me pelas axilas, pois, já sem forças, não conseguia manter-me de pé.

O Serra voltou a perguntar-me: «fala ou não fala?»
Gritei várias vezes: «não, não, não, não…» aos berros mantive-me no não. Fiquei sem poder respirar, já não via nada. Ligaram a ventoinha e trouxeram água.
Quando reanimei levaram-me para Caxias.

Estava muito rouca, não conseguia dormir, tinha alucinações, na sala tudo me assustava. Via pessoas que me escondiam o meu filho e eu agarrava-me a elas para se tirarem da frente dele. Todos os carros que via eram do meu cunhado, que me vinha ver.

Voltei novamente à P.I.D.E. para me fazerem novas ameaças.

Tive a primeira visita da minha família após mês e meio da minha prisão, uma visita que durou vinte minutos no palratório, pois a minha família viu-me em tal estado que começaram aos gritos a dizerem que tinham dado cabo de mim.

Estive dois meses num completo isolamento, sem advogado, sem ter um lápis, sem papel, sem livros, sem ter absolutamente nada que me ajudasse a passar o tempo.

(Testemunho de Maria da Conceição Matos Abrantes, empregada de escritório. Foi presa pela primeira vez em 21 de Abril de 1965. levada a tribunal, os juízes esqueceram todos os vexames e maus tratos e condenaram-na a uma ano e meio de cadeia, passando os dois primeiros meses em total isolamento. Voltou a ser presa em 2 de Setembro de 1968 e libertada dois meses depois. Todo este tempo foi passado em rigoroso isolamento.)

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