Saturday, March 25, 2006

Catarina Eufémia, morta no regime fascista por um GNR



1954 foi um ano repleto de grandes lutas que marcaram, intensa e profundamente, o movimento antifascista em todo o Alentejo.
Vivia-se tempos muito difíceis, ter pão em casa, era um luxo para muitas famílias, por isso mesmo, o pobre corajoso, num regime repressor e injusto, lá hasteava as suas bandeiras em forma de reivindicação, pedindo o que era seu por direito humano, sim, direito humano, mas, quem tinha a barriguinha cheia, quem organizava e governava Portugal, desconhecia com certeza a palavra humanismo. Desconhecia também, sem sombra de dúvidas, a palavra fome, então estava tudo bem…Humanismo? Que é isso no fascismo?
O pobre só queria ser menos pobre, ter trabalho, pão para matar a fome dos filhos.

A luta iniciada no mês de Março foi levada a cabo por um grupo de jovens rurais de Pias, organizados clandestinamente; começaram com uma manifestação e rapidamente a luta, que era de um pequeno grupo, passou a ser a luta de toda a Aldeia, alargou-se ainda a povoações circundantes, como Vale de Vargo, Aldeia Nova de S.Bento e Serpa.

Começou um grande movimento que arrastou várias dezenas de camponeses para a rua, que ansiavam respirar Justiça.

Rapidamente os seus protestos chegaram aos ouvidos dos “maus” da História, e os maus, tinham os seus poleiros, graciosamente oferecidos por um estado que pagava bem a lealdade; como é óbvio, manifestações deste género eram perigosas para o regime fascista, a moda podia pegar, e a revolução de Abril podia estar vinte anos adiantada.
Por isso mesmo, a PIDE (Policia Internacional de Defesa do Estado), rapidamente entrou em acção, levando várias brigadas para a margem esquerda do Tejo, e com o apoio das forças repressivas locais, desencadeou uma onda de repressão, muito possivelmente, a maior operação feita até aquele momento pelo regime nas povoações referidas, tendo gerado um ambiente semelhante a um autêntico estado de sítio.

A justiça ainda tinha de esperar…a repressão ainda estava viva, e queria viver, não chegou os corpos dos manifestantes com bandeiras em punho, o seu suor, a sua crença, os seus objectivos e sonhos, não chegou…a repressão quis ficar, e usou armas não mais poderosas, isso não, mas armas desleais, armas cobardes, forças sujas, e foi contra os corpos, que seguravam bandeiras, apenas bandeiras e vontade….
Foram presos vários dezenas de trabalhadores rurais e vários democratas, que se desdobraram de forma destacada em actos de solidariedade.

Foi apenas o início de uma guerra que ainda tinha muita vida para dar.



Chegou o mês de Maio, início das ceifas, e o início de novas reivindicações, um mês sempre muito combativo, os trabalhadores aproveitavam para reclamar o aumento salarial e melhores condições de vida.

Se havia uma altura em que os braços dos rurais eram indispensáveis, essa altura era Maio, face ao grande trabalho que havia de ser feito na agricultura.
Salários baixos, trabalho duro, jornada de sol a sol.

Por esta altura, os operários recorriam à mão-de-obra vinda do Algarve ou das Beiras, de modo a substituir os trabalhadores locais.
Estes trabalhadores não eram vistos com bons olhos pela população local, não só porque lhes perturbavam o processo de luta, mas também porque lhes tiravam o trabalho e sujeitavam-se a salários mais baixos, um dos motivos pelos quais a população local lutava com unhas e dentes; a sua chegada era deitar por terra as poucas conquistas que iam sendo alcançadas.

O culminar de todo o processo reivindicativo, que se desenvolveu e alastrou a outras povoações do Alentejo, teve lugar no dia 19 de Maio de 1954, quando um grupo de camponeses e camponesas de Baleizão decidiu falar com o grupo de trabalhadores recém chegados, incentivando-os para que trabalhassem pelo salário que tinha sido estabelecido e apresentado aos patrões.

Quando esse grupo se dirigia para o local onde decorriam as actividades agrícolas foram interceptados por uma força da GNR, com o tenente Carrajola no comando da frente; Foram a mando da PIDE, para evitar o contacto com aqueles que estavam a trabalhar e para escorraçar os grevistas da herdade.


Catarina Efigénia Sabino Eufémia, nasceu a 13 de Fevereiro de 1928, morreu a 19 de Maio de 1954, foi uma alentejana analfabeta assassinada a tiro, com 26 anos de idade, pelo tenente Carrajola, da GNR em Monte do Olival, Baleizão, perto de Beja, Alentejo. Catarina tinha três filhos, um dos quais de oito meses, que estava no seu colo no momento em que foi baleada.
No dia 19 de Maio de 1954, em plena época da ceifa do trigo, Catarina e mais treze outras ceifeiras foram reclamar com o feitor da propriedade onde trabalhavam para obter um aumento de 2 escudos pela jorna. Os homens da ceifa foram, em princípio, contrários à constituição do grupo das peticionárias, mas acabaram por não hostilizar a acção destas. As catorze mulheres foram suficientes para atemorizar o feitor que foi a Beja chamar o proprietário e a guarda.
Catarina fora escolhida pelas suas colegas para apresentar as suas reivindicações. A uma pergunta do tenente da guarda, Catarina terá respondido que só queriam "trabalho e pão". Como resposta teve uma bofetada que a enviou ao chão. Ao levantar-se, terá dito: "Já agora mate-me." O tenente da guarda disparou três balas que lhe estilhaçaram as vértebras. Catarina não terá morrido instantaneamente, mas poucos minutos depois nos braços do seu próprio patrão (entretanto chegado), que a levantou da poça de sangue onde se encontrava, e terá dito: Oh senhor tenente, então já matou uma mulher, o que é que está a fazer?. O patrão, Francisco Nunes, que é geralmente descrito como uma pessoa acessível, foi caracterizado por Manuel de Melo Garrido em "A morte de Catarina Eufémia —A grande dúvida de um grande drama" como "o jovem lavrador da região que menos discutia os salários a atribuir aos rurais e que, nas épocas de desemprego, os ajudava com larga generosidade". O menino de colo, que Catarina tinha nos braços ficou ferido na queda. Uma outra camponesa teria ficado ferida também.
De acordo com a autópsia, Catarina foi atingida por "três balas, à queima-roupa, pelas costas, actuando da esquerda para a direita, de baixo para cima e ligeiramente de trás para a frente, com o cano da arma encostada ao corpo da vítima. O agressor deveria estar atrás e à esquerda em relação à vítima". Ainda segundo o relatório da autópsia, Catarina Eufémia era "de estatura mediana (1,65 m), de cor branco-marmórea, de cabelos pretos, olhos castanhos, de sistema muscular pouco desenvolvido".
Após a autópsia, temendo a reacção da população, as autoridades resolveram realizar o funeral às escondidas, antecipando-o de uma hora em relação àquela que tinham feito constar. Quando se preparavam para iniciar a sua saída às escondidas, o povo correu para o caixão com gritos de protesto, e as forças policiais reprimiram violentamente a população, espancando não só os familiares da falecida, outros rurais de Baleizão, como gente simples de Beja que pretendia associar-se ao funeral. O caixão acabou por ser levado à pressa, sob escolta da polícia, não para o cemitério de Baleizão, mas para Quintos (a terra do seu marido o cantoneiro António Joaquim do Carmo, o Carmona, como lhe chamavam) a cerca de 10 km de Baleizão. Vinte anos depois, em 1974, os seus restos mortais foram finalmente transladados para Baleizão.
Na sequência dos distúrbios do funeral, nove camponeses foram acusados de desrespeito à autoridade; a maioria destes foi condenada a dois anos de prisão com pena suspensa. O tenente Carrajola foi transferido para Aljustrel mas nunca veio a ser sequer julgado em tribunal. Faleceu em 1964.

Cá se fazem cá se pagam, podia ser este o lema dedicado a Catarina Eufémia, morta sem qualquer sentido, sem qualquer razão; mesmo que razão houvesse, não seria tão grandiosa para acabar com a vida de uma camponesa jovem, mãe de três filhos, simplesmente porque reclamava pão, trabalho, e…justiça…
Catarina teve a audácia, a coragem, a determinação, de desafiar quem se dizia melhor, maior; teve a coragem de desafiar um cobarde, que utilizava a sua metralhadora para fazer valer um poder que ele não tinha.
Recordar as grandes lutas dos rurais no ano de 1954 é lembrar Catarina Eufémia.

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